Uso de maconha leva à dependência?

14.08.2007 por Cirilo Veloso Moraes

Eu não sou especialista no assunto, mas como recebo muitos e-mails pedindo esclarecimentos sobre drogas, como o mais recente, do Junior, de BH, que usa há dois anos e está tentando parar, resolvi publicar perguntas enviadas [e suas devidas respostas] a Danilo Baltieri, médico psiquiatra, mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas, ou seja, alguém com maior conhecimento nessa área específica do que eu.

Gostaria de saber se o uso esporádico de maconha leva à dependência?

Resposta: O consumo de maconha em geral começa ocasionalmente (em festas e com amigos), avança para consumo regular, passa para o uso freqüente, depois pode progredir para o abuso e, finalmente, para a dependência. Trata-se de um avanço progressivo do consumo da droga. Isso não quer dizer que todas as pessoas que experimentam a droga se tornam dependentes da mesma. Todavia, isso também não quer dizer que todas as pessoas que a experimentam não se tornam dependentes dela. Existem múltiplos fatores de risco que facilitam o desenvolvimento do quadro de dependência química da maconha, como fatores genéticos, psicossociais e ambientais.

A maconha consiste na mais freqüente substância ilícita consumida no Brasil e em vários outros países do mundo. Ainda muitas pessoas acreditam que ela não gera dependência, embora quadros de síndrome de dependência desta substância sejam freqüentes nos serviços especializados no tratamento das dependências químicas.

Usuário de maconha por décadas pode largar de uma vez só?

Resposta: O usuário de maconha por décadas deve procurar um profissional especializado para auxiliá-lo no difícil processo de cessação do consumo de substâncias. Seguramente, o usuário pode cessar o consumo de uma só vez. Nestas circunstâncias, ele pode experimentar sintomas de síndrome de abstinência, como irritabilidade, insônia, ansiedade e redução do apetite, além de importante desejo de voltar a usar, que podem ser manejados clinicamente. De qualquer forma, o mais importante do processo é a decisão clara por parte do usuário de parar o uso.
Recomendo cessação imediata do uso da droga, através da mudança de estilo de vida e de comportamentos associados a esse consumo. O apoio de familiares e amigos sempre é bem-vindo. Em geral, quando sob tratamento, eu recomendo a cessação imediata do consumo da droga. Isso não costuma ser uma tarefa fácil para o dependente que apresenta fissura pela droga, consome grandes quantidades de maconha em alta freqüência e possui a maior parte dos seus amigos também consumidores da droga. Todavia, a decisão deve ser clara e lembrada ao paciente durante as suas consultas.

Mesmo quando o paciente dependente consegue manter um tempo considerável de abstinência da droga, através de mudança do seu estilo de vida e da modificação dos comportamentos associados a esse consumo, ele pode voltar a consumi-la (recaída). Isso não deve significar “falha” do tratamento. Ao contrário, o paciente deve ser novamente incentivado a permanecer abstinente, reconhecendo as situações e os motivos que o levaram à recaída, objetivando driblá-los futuramente. O desenvolvimento de estratégias de evitação do consumo da substância, a mudança do estilo de vida, e o reconhecimento de que a Síndrome de Dependência consiste em uma doença, costumam ser ferramentas essenciais no processo terapêutico.

Maconha causa dependência química? Quais são os sintomas de abstinência?

Resposta: O quadro de síndrome de dependência provocado pelo consumo de maconha é bem estabelecido, embora ainda muitas pessoas, em geral usuários, duvidem disso.

A síndrome de dependência é caracterizada pela existência de perda do controle diante do consumo da substância, de prejuízos sociais, educacionais, laborais relacionados ao uso, do abandono de outros prazeres em função do consumo da droga, da evidência de tolerância (aumento da dose ou quantidade consumida, com o objetivo de se atingir os mesmos efeitos obtidos anteriormente com menores doses ou quantidades), síndrome de abstinência (sintomas psicológicos e/ou físicos decorrentes da parada ou redução abrupta do uso da substância). Na verdade, o indivíduo dependente apresenta três ou mais das características citadas acima.

A síndrome de abstinência de maconha costuma se apresentar com sintomas ansiosos, certa inquietação, desejo de fumar para cessar este estado de desconforto e irritabilidade. Embora os sintomas da síndrome de abstinência de maconha não sejam fisicamente evidentes, como seria nos casos do álcool e opióides, provocam importante desconforto entre os dependentes.

Psicoterapia seria o tratamento mais indicado para largar maconha?

Resposta: As psicoterapias consistem em uma das formas de tratamento que podem ser utilizadas em pacientes dependentes de maconha. Dentre elas, a terapia comportamental tem sido uma das mais utilizadas em vários serviços ao redor do mundo, mostrando resultados contrastantes.

Na verdade, o grande objetivo desta forma de terapia é a modificação do comportamento do usuário em relação ao consumo desta substância, procurando, principalmente, a modificação do seu estilo de vida, a estruturação de estratégias de evitação do uso e o manejo das recaídas, as quais, em geral, são freqüentes.
Libertar-se do vício da maconha é uma questão multifatorial que depende de: automotivação; suporte de amigos familiares ou grupos de auto-ajuda; e intervenção médica ou psicológica. Infelizmente, ainda não existem medicações comprovadamente eficazes para auxiliar no tratamento da dependência de maconha, embora muitas pesquisas estejam se dedicando a isso. De qualquer forma, o sucesso do tratamento depende basicamente de três fatores: a motivação do indivíduo em cessar o consumo da droga, o suporte de familiares e amigos, e a existência de uma intervenção médica ou psicológica adequada para cada pessoa.

Fonte: Vya Estelar

Sei que há muito mais a esclarecer sobre drogas como a maconha e demais sustâncias entorpecentes. Aceito sugestões de todo tipo… de sites, de livros a respeito do assunto, de lugares para tratamento, etc. Funciona assim: quando mais e mais pessoas se unem com o mesmo propósito, melhorar o mundo torna-se menos penoso. Conto com cada um de vocês nessa guerra contra as drogas. Só assim pessoas como o Júnior, de BH, e tantas outras do país inteiro, poderão se livrar das drogas e ajudar outras pessoas a fazer o mesmo.

Publicado em Anti-Drogas, Social | 50 Comentários »

Inclusão Social

12.06.2006 por Cirilo Veloso Moraes

 inclusao social 

  Cenário:
Pai trabalhador (P) e filho estudante (J) dentro do carro a caminho da escola.

  J: - Pai, já que roubaram o som do carro vamos conversar um pouco?

  P: - Claro, filho!

  J: - Pai, o que é inclusão social?

  P: - Bom, filho, é que muitas pessoas têm muito e outras nada têm, a inclusão consiste em dar direitos iguais a todos.

  J: - Ah, tá! Os integrantes do MST são um exemplo de excluídos né?

  P: - Isso, filho.

  J: - Pai, o que eu devo ser quando crescer?

  P: - Bom, primeiro escolha uma profissão que você goste, depois estude muito, mas muito mesmo e depois trabalhe muito mais, dia e noite, só assim você será alguém na vida. (atrasados para a escola, o pai pára sobre a faixa de pedestres e é multado, além de ser maltratado pelo policial)

  J: - Pai, o que houve?

  P: - Fomos multados, filho.

  J: - Mas por quê?

  P: - Porque estávamos bloqueando a passagem filho.

  (um pouco adiante o trânsito pára; a marcha do MST está passando)

  J: - Pai, por que eles estão bloqueando nosso caminho?

  P: - É a marca do MST, filho.

  J: - Ah tá, e aqueles policiais estão multando eles, né?

  P: - Não, filho, estão escoltando eles.

  J: - Ué, mas nós estávamos bloqueando a passagem e fomos multados e maltratados, e eles estão bloqueando tudo e são escoltados?

  P: (silêncio)

  J: - E o que é aquilo ali?

  P: - É o refeitório deles.

  J: - Ah, sei, lá eles gastam aqueles “vales-refeição” igual aos seus, que a pessoa ganha da empresa na qual trabalha.

  P: - Não, filho, o governo paga a alimentação pra eles.

  J: - Ué, e por que não paga pra você também?

  P: (silêncio)

  J: - E aquela ambulância lá? Ah, já sei! É por causa do plano de saúde que eles pagam, né? Como você paga pra poder ter assistência médica, né?

  P: - Não, filho, eles não pagam plano de saúde.

  J: - Ué, não entendi.

  P: - É o governo que está pagando essas ambulâncias que você está vendo.

  J: - E por que você paga plano de saúde então?

  P: (silêncio)

  J: - Por que a maioria deles está com rádio?

  P: - Porque o governo doou 10.000 radinhos pra eles se comunicarem.

  J: - Pôo! E a gente sem som no carro! E você fala que precisa trabalhar pra comprar outro; vamos pedir pro governo então.

  P: - Eles não nos dariam, filho.

  J: - Ah, já sei. Você reclama que paga 40% de tudo que ganha pro governo, mas com certeza eles pagam muito mais né? Eles têm todas essas regalias.

  P: - Não, filho, eles não pagam nada.

  J: - Como assim?

  P: (pensativo, em silêncio).

  J: - Pai, quero parar pra falar com eles.

  P: - Não adianta, filho, eles só falam através de assessor de imprensa.

  J: - Que legal! vamos contratar um assessor de imprensa pra nós, pai?

  P: - Filho, isso é muito caro, eu precisaria trabalhar o triplo do que trabalho pra poder pagar um assessor de imprensa.

  J: - Mas eles nem trabalham e têm?

  P: - Mas é o governo que paga filho.

  J: - Pai, não foram eles que invadiram um prédio público e fizeram a maior bagunça num ato de vandalismo absurdo?

  P: - Foram sim, filho.

  J: - E o que aconteceu com eles:

  P: - Nada, filho.

  J: - E por que eu fiquei de castigo e levei uma baita bronca porque quebrei a lâmpada do poste jogando bola?

  P: - Porque você tem que cuidar e respeitar o patrimônio público, filho.

  J: - E eles não precisam?

  P: (silêncio)

  J: - Pai! vamos com eles?

  P: - Claro que não, filho, você precisa estudar e eu preciso trabalhar.

  J: - O quê!? Pode parar, eu vou com eles; aprendi que os excluídos somos nós; eu quero a minha inclusão social já!!! (o menino desce do carro e se junta à passeata)

  P: (silêncio e lágrimas).

**********

O blog “Simples Coisas da Vida” está de cara nova (sem perder a essência, evidentemente) e agora não mais com o Movable Type, e sim com o WordPress. A mudança foi sugerida pela equipe especializada da Pixelzine (onde hospedo o blog) no intento de combater o ataque de spammers, vez que esse novo sistema é mais eficiente do que o anterior (espero que dê certo). 

Há sempre uma mudança aqui e outra ali a fazer, mas no conjunto final eu gostei. E vocês? (se é que notaram… rsrs)

Mar de Doçura - Cavaleiros do Forró

Publicado em Social | 2 Comentários »

Propostas…

01.04.2006 por Cirilo Veloso Moraes

O “Simplicíssimo”, site de meu amigo Rafael Reinehr, estará propondo um debate aberto à sociedade brasileira através da apresentação de 6 “Propostas Para Um Brasil Melhor”.

Espera-se poder contar com uma discussão ampla dos temas lá apresentados a cada semana e, do resultado da discussão, quer seja proposto um plano de metas realizáveis através da composição de uma “Carta” a ser redigida e endereçada ao presidente do Senado, da Câmara, do STJ, do STF e ao presidente do país.

Muito mais do que a mera apresentação das propostas, enseja-se o debate pleno e amplo das mesmas e, para que o mesmo seja rico, conta-se com a divulgação das Propostas na mídia instituída e independente.

Qualquer leitor pode ajudar o “Simplicíssimo” nesta tarefa enviando um e-mail ou carta aos representantes dos meios de comunicação que julgarem significativos, assim como convidar para a discussão pessoas que sabidamente se interessem em discutir temas relevantes para o futuro de nosso país.

Outra forma de divulgar as “Propostas Para Um Brasil Melhor” é colocar algum dos banners da campanha em seu site ou weblog, lincando para o “Simplicíssimo” e explicando do que se trata a campanha.

Brasil - Cazuza

Publicado em Social | 2 Comentários »

Proibição! Sim ou Não?

19.10.2005 por Cirilo Veloso Moraes

votonao.gif

Utilidade Pública

1. OS PAÍSES QUE PROIBIRAM A VENDA DE ARMAS TIVERAM AUMENTO DA CRIMINALIDADE E DA CRUELDADE DOS BANDIDOS

As lições de quem já tentou proibir as armas

A experiência internacional demonstra que a quantidade de armas nas mãos da população não determina o grau de violência de uma sociedade. Tanto é assim que a Suíça, onde a venda de armas é livre e os homens recebem um fuzil do Exército para guardar em casa, e o Japão, onde armas de fogo são rigorosamente proibidas, estão entre os países com as menores taxas internacionais de criminalidade. Decretar o desarmamento geral como principal medida para coibir a criminalidade costuma ser um tiro pela culatra. A Jamaica, um dos países mais violentos da América, baniu as armas de fogo em 1974. De lá para cá, a situação piorou, e com o acréscimo de um novo elemento, o mercado negro de armamentos. “Os criminosos jamaicanos encontram pistolas e revólveres contrabandeados facilmente, enquanto o cidadão honesto que quer ter uma arma é obrigado a recorrer à ilegalidade”, disse a VEJA o canadense Gary Mauser, pesquisador do Instituto de Estudos Urbanos do Canadá e especialista em políticas de controle de armas. Muitos países adotaram o desarmamento em momentos de forte comoção social. Em estado de choque devido ao massacre cometido por um louco, em 1996, a Austrália baniu modelos automáticos e semi-automáticos e tirou de circulação 700.000 armas, o equivalente a um sexto do arsenal do país – mas o número de homicídios se manteve inalterado. Na Inglaterra, desde o banimento das armas com calibre superior a 22 milímetros, em 1997, os crimes de morte aumentaram 25% e as invasões de residência, em torno de 40%. “Com a população desarmada os riscos são menores para os criminosos”, diz o economista americano John Lott, autor de dois livros sobre desarmamento. “Os marginais sentem-se mais seguros para invadir as casas mesmo que os proprietários estejam dentro, o que potencializa a violência dos assaltos.”

2. AS PESSOAS TEMEM AS ARMAS. A VITÓRIA DO “SIM” NO REFERENDO NÃO VAI TIRÁ-LAS DE CIRCULAÇÃO NO BRASIL

Armas apreendidas pela polícia são esmagadas no Rio de Janeiro: 4 milhões delas estão nas mãos dos criminosos brasileiros

A culpa pelos altos índices de criminalidade e de homicídios não é da arma, mas de quem a tem em mãos. Revólveres não transformam cidadãos em assassinos. O Rio Grande do Sul é um exemplo. O estado tem a população mais armada do país – 937.000 armas registradas, ou uma para cada dez habitantes. Ao mesmo tempo, possui uma das menores taxas de homicídio (doze para cada 100.000 habitantes). No estado de São Paulo, há uma arma para cada 74 habitantes e uma taxa de 28 homicídios por grupo de 100.000 habitantes. A Suíça é um dos países mais armados do mundo. São 2 milhões de armas – entre elas 600.000 fuzis e 500.000 pistolas – para uma população de 7 milhões de pessoas. As ocorrências de crime por arma de fogo são tão baixas que nem sequer têm valor estatístico. Em muitos países, a arma é uma questão cultural, e não, necessariamente, um instrumento de agressão. Em especial, os países de fronteira, com grandes espaços a ser ocupados, como os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil, têm a tradição da posse da arma e da caça. Nas zonas rurais brasileiras, longe dos pontos policiais, serve para sitiantes e fazendeiros defenderem suas propriedades de assaltos, invasões do MST e dos ataques de animais predadores a seus rebanhos e criações. É por isso, com certeza, que os sem-terra apóiam o desarmamento. “É muito fácil jogar a culpa pelo aumento da criminalidade na arma, e não na falta de investimento na segurança pública”, diz o secretário da Justiça do Rio Grande do Sul, José Otávio Germano. As armas, assim como as bebidas alcoólicas ou os automóveis, não causam estragos por conta própria. Só se tornam nocivas se forem mal utilizadas. “Os mesmos argumentos usados de forma falaciosa para justificar o desarmamento poderiam muito bem ser utilizados em relação às mortes provocadas no trânsito para proibir a circulação de veículos”, diz o economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo.

3. O DESARMAMENTO DA POPULAÇÃO É HISTORICAMENTE UM DOS PILARES DO TOTALITARISMO. HITLER, STALIN, MUSSOLINI, FIDEL CASTRO E MAO TSÉ-TUNG ESTÃO ENTRE OS QUE PROIBIRAM O POVO DE POSSUIR ARMAS

Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, listou o desarmamento da população entre as providências essenciais para garantir o controle totalitário da sociedade. A história mostra que restringir o acesso da população às armas é uma das primeiras medidas de qualquer regime totalitário. “A história ensina que todos os conquistadores que permitem aos povos dominados carregar armas acabam caindo”, teorizou Adolf Hitler, em 1942. Hitler desarmou os alemães e os povos dos países ocupados, mas distribuiu armas entre milícias fiéis ao regime. É o mesmo que atualmente fazem Fidel Castro em Cuba e o coronel Hugo Chávez na Venezuela. “O desarmamento faz parte da filosofia comunista de que toda e qualquer liberdade individual deve ser abolida em benefício do Estado operário”, diz Angelo Segrillo, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense, do Rio de Janeiro. Nessa linha de raciocínio, Stalin, da União Soviética, Mao Tsé-tung, da China, e Pol Pot, do Camboja, desarmaram suas populações.

4. A POLICÍA BRASILEIRA É INCAPAZ DE GARANTIR A SEGURANÇA DOS CIDADÃOS

Desde a sua gênese, na Europa do século XVII, os Estados modernos têm como um de seus pilares o princípio de que a autoridade central deve ter o monopólio legítimo do uso da força e da violência, tornando-se responsável pela segurança de todos. O fato de a segurança coletiva ser atribuída ao Estado, no entanto, não elimina o direito de autodefesa do cidadão para preservar a própria vida – o que em determinadas ocasiões chega a ser uma reação instintiva. “É por isso que o princípio de ‘legítima defesa’ está presente em quase todos os grandes sistemas de direito do mundo”, diz Eduardo Carlos Bianca Bittar, professor de filosofia e teoria geral do direito da Universidade de São Paulo. “A vida é um bem inalienável e o Estado não pode limitar o poder do indivíduo de defendê-la”, diz Bittar. Em países como o Brasil, em que a impunidade de criminosos, a ineficácia das leis e a violência urbana já fazem parte do imaginário nacional, é natural que a confiança dos cidadãos no Estado desapareça. Segundo uma pesquisa da Universidade de São Paulo, apenas 10% dos brasileiros acreditam que a polícia garante a segurança da população. A desconfiança dos cidadãos tem respaldo nas estatísticas: apenas um décimo dos 50 000 homicídios que acontecem por ano no Brasil é esclarecido pela polícia.

DESTINO ERRADO
Duas senhoras cariocas entregam revólveres e pistolas à polícia durante campanha do desarmamento, em 2003. Mais de 400 000 armas foram entregues voluntariamente em todo o Brasil, mas algumas – as melhores – foram roubadas dos depósitos da polícia. Sabe-se da origem de pelo menos 83 delas, que acabaram nas mãos de bandidos de Santos, em São Paulo

5. A PROIBIÇÃO VAI ALIMENTAR O JÁ FULGURANTE COMÉRCIO ILEGAL DE ARMAS

Bandidos não compram armas em lojas. “A maior parte das armas em poder do crime organizado é obtida por meio de contrabando”, diz o delegado Carlos Oliveira, titular da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos do Rio de Janeiro. Em 2001, essa delegacia rastreou 1.030 armas apreendidas para descobrir como elas foram parar nas mãos de criminosos e descobriu que boa parte delas era de fabricação brasileira e de uso restrito das Forças Armadas e da polícia. Muitas tinham sido exportadas para outros países, sobretudo o Paraguai e os Estados Unidos, e voltado nos contêineres dos contrabandistas. Nos morros cariocas, os criminosos exibem exemplares do Fuzil Automático Leve (FAL), usado pelo Exército Brasileiro, e do fuzil HK G3, alemão, utilizado pela Marinha e pela Aeronáutica. São armas roubadas de sentinelas, compradas de militares corruptos ou tomadas em assaltos a caminhões de carga. A proibição do comércio de armas de fogo não vai pôr fim ao mercado de armas e munições. A medida, além de contribuir para o crescimento do mercado clandestino, pode colocar o cidadão de bem em situação irregular. Mesmo se tiver uma arma registrada em casa, ele não conseguirá comprar munição, a não ser de forma ilegal. Como é óbvio, a proibição do comércio legal de armas terá como conseqüência inevitável a ampliação do tráfico ilegal.

6. OBVIAMENTE, OS CRIMINOSOS NÃO VÃO OBEDECER À PROIBIÇÃO DO COMÉRCIO DE ARMAS

No Brasil há um comércio de armas legal, sobre o qual o Estado tem controle. O país produz em torno de 200.000 armas por ano e exporta 70% delas, sobretudo para os Estados Unidos e para a Indonésia. Uma parte é vendida aqui diretamente às Forças Armadas e à polícia. Chegam às lojas em torno de 20.000 armas. A maioria é adquirida por empresas de segurança e 3.000 são compradas por pessoas comuns para uso particular. Os defensores da proibição do comércio legal desses artefatos argumentam que as armas acabam nas mãos de bandidos, roubadas em assaltos a residências ou nas ruas. Em vista das pesadas restrições que cercam a venda de armas no Brasil, todo o mastodôntico referendo foi criado, em última análise, para decidir sobre um reles arsenal de 3.000 revólveres e armas de caça vendidos por ano. Isso num país em que se estima existirem 8 milhões de armas clandestinas. Dessa forma se estará abrindo mão de um dos derradeiros setores do comércio de armas que agem dentro da lei e sobre o qual o Estado tem controle. A medida, além de alimentar o crescimento do mercado negro, pode colocar o cidadão de bem numa situação difícil. Mesmo se tiver uma arma registrada em casa, ele não conseguirá munição, a não ser com traficantes.

7. O REFERENDO DESVIA A ATENÇÃO DAQUILO QUE DEVE REALMENTE SER FEITO: A LIMPEZA E O APARELHAMENTO DA POLÍCIA, DA JUSTIÇA E DAS PENITENCIÁRIAS

Um dos argumentos daqueles que defendem a proibição da venda de armas de fogo é que a medida reduzirá o número de armas em circulação e, em conseqüência, cairão os índices de homicídios. A premissa é duplamente falsa: primeiro porque o contrabando dará um jeito de atender à demanda por armas, em especial a dos bandidos. Segundo porque, mesmo que as armas disponíveis diminuíssem, isso não seria suficiente para reduzir a criminalidade. “Crime se combate com uma polícia honesta e bem equipada, não com o desarmamento da população”, diz o paulista José Vicente da Silva Filho, ex-secretário Nacional de Segurança Pública. As experiências bem-sucedidas de redução de criminalidade em outros países começaram pelo combate à corrupção na polícia. Na década de 90, antes de adotar a política de tolerância zero ao crime, o então prefeito de Nova York Rudolph Giuliani foi implacável com os policiais corruptos. No Brasil, o passo seguinte seria aparelhar melhor a polícia. O governo federal gasta, por ano, 170 milhões de reais com segurança pública. Isso é menos do que os 270 milhões de reais que serão gastos com o referendo. Com esse dinheiro seria possível comprar 10 500 viaturas e 385 000 coletes à prova de bala para a polícia. O recurso seria ainda mais bem aplicado se fosse usado na aquisição de computadores para as delegacias e na unificação do banco de dados das forças públicas. “Quanto melhor a estrutura de informação e comunicação da polícia, maior sua capacidade de combater o crime”, diz José Vicente da Silva Filho. “Essa é uma das maiores deficiências da polícia brasileira.”

8. VÍTIMA DAS ARMAS, INIMIGO DO DESARMAMENTO

Assalto na rua o deixou paraplégico

O carioca Michel Kyrillos, de 53 anos, não tem armas. Nas cinco vezes em que foi assaltado nas ruas do Rio de Janeiro, seguiu as orientações dos especialistas em segurança e não reagiu. No quinto assalto, em dezembro de 2002, ele se assustou – e pagou caro por isso. Era um fim de tarde de domingo, e Kyrillos dirigia, acompanhado da mulher, pelas ruas do bairro de Campo Grande, na Zona Oeste. Seu carro foi fechado por um grupo de assaltantes a 200 metros de um posto da polícia. Ao tentar desviar da armadilha, capotou. Os ladrões acertaram onze tiros no carro e um em Kyrillos. Atingido na coluna, ele esteve internado por quatro meses num hospital e ficou paraplégico. Foi obrigado a deixar o emprego de supervisor de vendas e se aposentou por invalidez. Os assaltantes nunca foram identificados.

Hoje, Kyrillos, que é fundador do Jeep Club do Rio de Janeiro, locomove-se numa cadeira de rodas. Embora tenha sido vítima das armas, ele é contra o projeto de desarmamento. “Os bandidos vão continuar tendo acesso fácil às armas e os políticos não vão demitir seus seguranças particulares que andam com revólveres”, ele diz. “Eu não sairia na rua com uma arma, mas acho que essa é uma escolha pessoal, um direito do cidadão. Como a polícia não funciona, todos nós temos direito a nos defender”, completa.

A criminalidade no Rio de Janeiro bate recordes a cada ano, sem que a máquina do Estado consiga deter sua escalada. De janeiro a junho deste ano, as tentativas de homicídio, como a que vitimou Kyrillos, aumentaram 11% com relação ao ano passado. O total de roubos registrados nas delegacias aumentou 6% no mesmo período. Acuada, a população carioca espera providências concretas, que nunca se materializam. “O problema da polícia do Rio de Janeiro é que ela não tem planejamento. As ações sempre respondem a problemas pontuais”, diz o sociólogo Ignacio Cano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

*Recebido por e-mail

**********

É por esses e outros vários motivos que eu VOTO NÃO!!!

E você?

obs: Falando em desarmamento, vocês já ouviram a entrevista que rola na internet feita pela jornalista Laura Bonavides com o líder do tráfico do morro do dendê? Se ainda não ouviram, BAIXEM AQUI. E ouçam porque o traficante é a favor do desarmamento, porque ele vota sim ao invés de não. Dizem ser um trote, mas vale a reflexão.

Mein Teil - Rammstein

Publicado em Social | 6 Comentários »

A Fofoqueira

04.09.2003 por Cirilo Veloso Moraes

Uma mulher espalhou uma fofoca sobre uma certa pessoa que ela não conhecia bem, mas a invejava. Alguns dias depois, o bairro inteiro sabia a história. A pessoa que foi alvo da fofoca ficou indignada e muito ofendida. Mais tarde, a mulher que espalhou o boato descobriu que era tudo mentira, ficou arrependida e foi visitar um velho sábio para descobrir o que podia fazer para consertar o estrago.

_ Vá até a praça principal - disse ele -, compre uma galinha e mande matar. Depois, no caminho de casa, depene-a e solte as penas uma a uma pela rua. Embora surpresa com o conselho, a mulher fez o que o sábio havia mandado.

No dia seguinte ele disse:

_ Agora vá, recolha todas as penas que deixou cair ontem e traga para mim.

A mulher seguiu o mesmo caminho, mas, para seu desespero, o vento tinha dispersado todas as penas. Depois de procurar por horas, ela voltou com apenas três penas na mão.

_ Está vendo - disse o velho sábio - , é fácil soltá-las, mas é impossível recolhe-las. Com a fofoca também é assim. Não custa muito espalhar um boato, mas, depois que se espalha, nunca se pode reverter o dano completamente.

Publicado em Comportamento, Reflexões, Social | Comente aqui »

Principal

Busca:

Posts Recentes

Categorias:

Arquivos:

Meta: