Não sei vocês, mas eu sempre tive o hábito de escrever tudo em caderninhos de anotações. Tudo bem que hoje faço isso no meu celular, que só falta falar [se é que não fala rsrs] (impressionante como a tecnologia avança tão rapidamente), mas estava procurando um livro antigo e acabei encontrando os tais cadernos. Tantas coisas maravilhosas, tantos acontecimentos memoráveis [muitos engraçados] do dia-a-dia ali registrados, e tanta porcaria também [kkk]. Eu anotava de tudo mesmo. Se estivesse assistindo um filme e ouvisse algo que gostasse, anotava; se alguém contasse algo diferente, ao chegar em casa anotava; se lesse algo interessante, anotava… Bem, acontece que abri um deles e dei de cara com um poema de Camões que retrata o amor platônico dele [que se contenta com a imaginação da amada] tornando-se noutro momento em aristotélico [que busca a satisfação corpórea]. Lindo mesmo. Até porque imaginar e viajar em pensamento é uma maravilha, mas abraçar e deleitar-se nos braços do ser amado é igualmente uma delícia. Eis o poema:
“Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma”.
L. Vaz de Camões
Bandolins - Oswaldo Montenegro
Cirilo Veloso Moraes



