May122010

Até quando você vai ficar sem fazer nada?

Maiakovski, poeta russo “suicidado” após a revolução de Lenin, escreveu ainda no início do século XX:

Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

Depois de Maiakovski, Bertold Brecht (1898-1956) escreveu:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Depois de um tempo, Martin Niemöller, símbolo da resistência aos nazistas, escreveu também:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…

Mais recentemente, em 2007, foi a vez de Cláudio Humberto:

Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima.

Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles.

Depois fecharam ruas, onde não moro.

Fecharam então o portão da favela, que não habito.

Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho…

Há cem anos Maiakovski lançou esse grito, essa denúncia, e outros lhe fizeram eco.

Incrível é que, após mais de cem anos, ainda nos encontremos tão desamparados, inertes e submetidos aos caprichos da ruína moral dos poderes governantes que vampirizam o erário, aniquilam as instituições, aumentam a desigualdade social com políticas públicas que ajudam muito pouco e deixam aos cidadãos os ossos roídos e o direito ao silêncio: porque a palavra, há muito, se tornou inútil…

E preciso, portanto, continuar gritando, denunciando, porque muitos ainda não ouviram.

Por fim só uma pergunta: E você, até quando vai ficar sem fazer nada?

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