Oct12008

O poder da ação não-violenta

Meu amigo Márcio Rocha enviou-me um e-mail que me fez refletir bastante sobre o poder da ação não-violenta e seu papel na educação dos filhos. Não tenho filhos ainda, mas quando tiver certamente me lembrarei dos ensinamentos contidos no texto enviado pelo Márcio e que agora compartilho com todos vocês. Alguns talvez o conheça, talvez já tenham lido em algum lugar, mas nunca é demais relembrar uma mensagem como esta.

O Doutor Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Gandhi Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seu pai, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.

“Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais na instituição que meu avô havia fundado e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul. Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos. Por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com a possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.

Certo dia meu pai pediu-me que o levasse até a cidade onde participaria de uma conferência durante o dia inteiro. Eu fiquei radiante com esta oportunidade.

Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina.

Quando me despedi de meu pai ele me disse:

“Nos vemos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos.”

Depois de cumprir todas as tarefas fui até o cinema mais próximo.

Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai. Eram quase 18 horas.

Ele me perguntou ansioso: “Por que chegou tão tarde?”

Eu me sentia mal pelo ocorrido e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então disse a ele que o carro não ficara pronto e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, disse-me:

“Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso.”

Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação.

Não pude deixá-lo sozinho… Guiei por 5 horas e meia atrás dele, vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito. Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.

Muitas vezes me lembro deste episódio e penso:

“Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?”

“Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na minha memória como se fosse ontem.”

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