Mãezices…
Minha mãe adora dar conselhos. Não sobre coisas importantes – ela nunca disse uma palavra sobre com quem deveria casar-me, o que deveria ser quando crescer ou que casa deveria comprar. Ela faz mais o gênero o-que-você-precisa-fazer-com-seu-cabelo. É especialista em franja. “Não deixe a franja esconder seus olhos”, diz ela, tocando-a.
Também gosta de dar conselhos sobre saúde. Não saia de cabelo molhado ou vai pegar pneumonia. Não sente no chão frio ou vai ter hemorróidas. Não fale ao telefone durante uma tempestade porque um raio pode atravessar quilômetros de cabo e matá-la no meio do corredor.
Lembro-me até hoje de nossas cabeças fazendo que sim. Todos nós. Você reconhece uma mãezice de imediato.
As mãezices não se baseiam em fatos, nem têm qualquer precedente histórico (bem, talvez o caso do telefone tenha). Apóiam-se na teoria de que a mãe tem o direito de dar conselhos porque ela é “A mãe”. É a única credencial de que ela precisa.
Minha vida está impregnada de mãezices. Quando eu era pequena, ficou bem claro para nós – os quatro filhos – que mamãe conhecia muita gente azarada. Esse pessoal sem sorte deu muito combustível para as mãezices relacionadas às tragédias do tipo foi-tudo-por-culpa-deles-mesmos – que minha mãe descrevia ocm aquele tom de voz que se usa para contar histórias de fantasmas ao redor da fogueira.
Se inclinávamos a cadeira, fincando-a só nos pés de trás, mamãe nos contava a história do homem que fez isso, caiu para trás, quebrou o pescoço e ficou paralítico PELO RESTO DA VIDA.
Se jogávamos uma pipoca para cima a fim de pegá-la com a boca, mamãe falava de um rapaz que depois de fazer o mesmo tinha MORRIDO ENGASGADO.
E quando minhas irmãs e eu, morrendo de rir, encostávamos a língua no freezer do supermercado, ela vinha co a história do menino que havia ficado com a língua grudada, precisando ser cortada pelos rapazes do Corpo de Bombeiros. E ele ficaria até o fim da vida falando como se tivesse a língua presa. Ainda hoje estremeço só de lembrar-me.
Na adolescência, surgiram as mãezices sobre namorados, o que acabava sempre estragando nossas noites de sábado.
Primeiro, as mãezices do tipo mocinhas-não-fazem. Mocinhas não mascam chiclete. Mocinhas não assobiam. Mocinhas não se sentam com as pernas descruzadas.
Depois vieram as do tipo você-não-pode-confiar. Rapazes italianos vão enganá-la. Franceses também. E chineses, ingleses, irlandeses e os das 93 outras nacionalidades que frequentam a escola. Quando mamãe terminava aquela lista, estávamos convencidas de que o único rapaz seguro para nos acompanhar era nosso irmãozinho caçula.
Ele próprio não escapou das mãezices. Mamãe dizia: “Trate as meninas da mesma forma como trataria suas irmãs.” Pelo visto, ela se esquecia de que aquele era o mesmo menino que tinha tentado tapar nosso nariz com geléia enquanto dormíamos, e que nos chamava de cara de rato e cara de cachorro.
Eu pensava que quando tivesse filhos mamãe desistiria. Mas não funcionou assim. Há pouco tempo, ela pegou no meu cabelo, cortado bem curto na nuca, e disse: “Não devemos anunciar o que não temos para vender.” Aí percebi: não há limite para as mãezices. Eu ri e disse: “Está bem, mamãe, obrigada por me lembrar.”
Acho que devo isso a ela. Para dizer a verdade, nos últimos anos comecei a entendê-la melhor.
Ontem mesmo, por exemplo, minha filha se apoiou nos pés de trás da cadeira.
-Menina, não faça isso – repreendi-a, caprichando na voz. – Sabe que sua avó conheceu um rapaz que fez isso e…
C. Schultz
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No final das contas, elas querem apenas nos preservar, nos preparar para um mundo que tenta nos devorar o tempo inteiro.
Minha mãe, assim como todas as demais, tem lá suas mãezices. E graças a Deus que ela tem.
Talvez, se ela não falasse toda vez que eu saía a qualquer lugar para ter cuidado quando descesse, quando fosse estacionar, quando fosse buscar o carro de volta; para olhar para os lados, ver quem está por perto, para eu não exceder os limites de velocidade (“não corra, meu filho”), para eu não beber e voltar dirigindo, para eu bem escolher minhas companhias, para eu ter juízo, etc, eu não tivesse me tornado o homem que sou hoje.
Desde sempre ela tem dessas coisas. E como para mães os filhos nunca crescem, ainda hoje (e sei que sempre enquanto estiver viva) ela fala. Já decorei.
Nem meus amigos e amigas escapam das mãezices de minha mãe. Do mesmo jeito que ela fala para mim, fala para todos eles.
E quer saber? Reclamava sempre disso. Hoje, já não reclamo mais. Deixo ela falar e apenas respondo balançando a cabeça: “Fica tranquila, minha mãe”, “Obrigado por me lembrar”, ou (para brincar com a cara dela) “Quem corre é o carro.”
E assim é. Muitas outras mãezices ela tem. Numa outra oportunidade conto mais.
E as suas mães também têm mãezices, claro. Então, contem pra gente…
Ela me faz tão bem – Jota Quest

Flávio Venturini – Todo azul do mar








